sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O morro que sumiu do centro da cidade do Rio de Janeiro


Quem pega o aterro do Flamengo hoje e desemboca na avenida Presidente Antonio Carlos muitas vezes não percebe, distraído, que está perante uma paisagem diferente.  O centro do Rio é em geral tão apertado, carregado de vielas estreitas e prédios discretos, quando não sombrios, mas ali é um descampado, pistas largas de automóvel, prédios portentosos que fazem sumir a discreta igrejinha de Santa Luzia.  Não é preciso continuar muito tempo a viagem até um pouco antes da Assembleia Legislativa, naquele momento em que, à esquerda, está o edifício garagem Menezes Cortes.  Há um desnível na pista que desce uns palmos numa ladeira ligeira para chegar ao Paço Imperial, onde a Presidente Antonio Carlos muda o nome para Primeiro de Março.  Ali, no desnível, o motorista acaba de atravessar o membro desaparecido da cidade: o Morro do Castelo.
O Morro do Castelo ocupou uma área de 184.000 metros quadrados, o equivalente a dezoito quarteirões do Rio atual, delimitado em suas partes mais extremas pelas ruas São José, Santa Luzia, México  pelo Lago da Misericórdia.  Tinha 64 metros o ponto mais alto, como um prédio de 22 andares, e visto de cima lembraria um losango com uma de suas metades, a que apontava para o Pão de Açúcar, carcomida.  Uma das faces compridas debruçava-se nas águas da Guanabara, esticando-se numa península que chamaram certo tempo de Ponta do Calabouço.  A face do outro lado mirava onde estão hoje a Cinelândia, Passeio Público e largo da Carioca.  Viveu 357 entre a fundação da cidade e sua demolição em 1922.  Foi chamado morro do Descanso, de São Januário, do Conselho, do Colégio, da Sé, da Sé Velha, além de baluarte da Sé e alto de São Sebastião.

Veja a notícia do Jornal do Século que circulava na época e fotos do Morro do Castelo:
O Prefeito Carlos Sampaio decretou o fim do Morro do Castelo por meio do decreto 1.529. O Morro foi alvo de inúmeros pareceres técnicos das áreas da medicina e da engenharia que alegavam que o arrasamento da colina era vital para a melhoria do clima e da circulação dos ventos na área central do Rio de Janeiro.

O prefeito tinha como objetivo sanear a cidade e prepará-la para as comemorações do 1º centenário da independência do Brasil, realizando obras de saneamento e embelezamento que culminariam numa exposição internacional no local. A reforma urbana promovida por Pereira Passos, ao remodelar ao Rio Antigo, deixou o morro do Castelo fora do processo de modernização urbana.
Foi em vão a intensa campanha contra a demolição do Morro do Castelo iniciada pelo Jornal do Brasil em 1920, local onde, em 1567, "nasceu a cidade, ergueu-se Estácio, o fundador", como afirmou o escritor Monteiro Lobato, igualmente contra o arrasamento.
Máquinas e empréstimos no valor de US$ 12 milhões foram contratadas para dar fim ao morro, que na época da abertura da Avenida Central já havia cedido uma fatia para os tratores do progresso.
As 4.200 pessoas que ficaram sem lar seriam instaladas em barracos na Praça da Bandeira.
O berço da cidade do Rio de Janeiro
O Morro foi escolhido por Mém de Sá em 1567 para abrigar os portugueses que haviam participado da expulsão dos franceses comandados por Villegaigon. Desempenhou por muito tempo uma função estratégica. O telégrafo e o Observatório Astronômico funcionaram no seu topo.
Ele também abrigou os Jesuítas, que foram expulsos durante o governo do Marquês de Pombal em 1759. A expulsão gerou muitas lendas na população, que acreditava que tesouros teriam sidos enterrados durante o rápido despejo da ordem.





A Cinelândia, local onde ficava o Morro do Castelo

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